A Tipografia é um dos pilares principais, senão o principal, do Indesign. Infelizmente, apesar das suas enormes capacidades, não há muitos a explorar todas as potencialidades do programa, no que à Tipografia diz respeito.
Não especifico dogmas nem regras tipográficas. Esta é apenas a minha lista.
1. A escolha de uma fonte
Este primeiro tópico é o único que é transversal. Serve para o Indesign, tal como para o QuarkXPress ou qualquer outro programa de paginação electrónica.
A escolha de uma fonte é das características mais importantes em Tipografia. Sem me alongar muito (que o artigo vai ser extenso), existem 3 tipos de fontes digitais:
- Fontes TrueType
- Fontes Type 1
- Fontes OpenType
As fontes TrueType e Type 1 funcionam em plataformas diferentes (Mac e pc). Já as fontes OpenType funcionam, com o mesmo ficheiro, em Mac e pc.
Na escolha de uma fonte, além dos motivos óbvios (x-height, ascendentes e descendentes, cor, peso, legibilidade, etc.) é importante considerar se a família (bold, itálico, semibold…) contém o maior número de caracteres especiais (@, ‰, ÷, …) e diacríticos (â, ã, ô, í…).
As fontes OpenType, desde que o criador da fonte o considere, tem um mapa de caracteres que permite cerca de 60.000 variações da mesma família (small caps, números de texto, expoentes, índices, etc.) e são, desde o seu aparecimento, as minhas favoritas.
Nota: Nem todas as fontes OT têm o mapa de caracteres completo.
A imagem seguinte mostra os vários tipos de fontes.
O ícone vermelho com um ”a” representa as fontes Type 1.
O ícone com 2 ”t´s” representa as fontes TrueType.
O ícone com um ”O” representas as fontes OpenType.
Neste artigo, para exemplificar as várias regras, irei usar uma fonte OpenType, o Chaparral Pro.

2. Kerning
Muitas vezes esquecido, o Kerning é fundamental para ajustamentos ao par entre caracteres. É mais usado em corpos grandes.
O bloco de texto do lado direito funciona muito melhor com kerning personalizado. Reparem na distância entre o ”A” e o ”v”, na abreviatura ”Av.”, ou no espaço entre o ‘‘1’’ e o ‘‘4’’ em ”1450. Conseguem identificar mais 2 kernings aplicados neste exemplo?

Para usar o Kerning no Indesign, posiciona-se o cursor entre os 2 caracteres que pretendemos altererar e na Palete Control, alteramos com valores negativos ou positivos.

3. Tracking
O Tracking permite um ajuste negativo ou positivo entre todos os caracteres. É o mais utilizado para quando pretendo ”dar” mais uma linha, ou recolher uma linha pendurada.

Atenção aos exageros! Quanto mais pequeno o corpo, menos Tracking se deve utilizar.
O Tracking situa-se na Palete Control, logo debaixo de Kerning, podendo ser inseridos valores negativos ou positivos.
4. Small Caps (Versaletes)
Gosto imenso de usar versaletes (ou Small Caps), especialmente quando a fonte já vem com um mapa de Small Caps preparado para usar.
Neste exemplo, estou a usar 3 fontes diferentes: Chaparral (OpenType); Clarendon (type 1) e Cochin (TrueType).

Por defeito, a altura do versalete relativamente ao versal (maiúscula) é de 70%.
Nas Preferências, tab Advanced Type, campo Small Cap, posso especificar que a altura do versalete é de 50% da altura da versal.

A alteração produzida nas preferências só teve efeito na fonte Type1 e na fonte TrueType. Isto acontece porque o Chaparral Pro, sendo uma fonte OpenType, como referi, tem um mapa de caracteres para os Small Caps, com uma altura própria, ignorando e bem, as especificações dadas no quadro acima.
Neste exemplo, estamos perante uma alteração artificial do versalete, nas fontes T1 e TT, o que não acontece com a fonte OT.

As Small Caps encontram-se na Palete Control.

5. Justificação óptica
Os textos em bandeira à esquerda, à direita ou centrados, têm a particularidade de nos deixar linhas penduradas. Para evitar partir manualmente as linhas que pretendo, uso um comando (também esquecido) chamado Balance Ragged Lines. Este comando permite optimizar a largura de cada linha, tornando o texto final mais agradável à leitura.
Do lado esquerdo, sem Ragged Lines, do lado direito com Ragged Lines. Reparem que não foi dado nenhum retorno manual a seguir à palavra ”ad’.
O Balance Ragged Line encontra-se no fim da Palete Control, num sub-menu, e só se encontra activo com o texto ou a ferramenta de texto seleccionada.

6. Linguagem nativa
Num texto em francês, é natural que use os parâmetros de composição para o francês, o mesmo acontece para o húngaro ou para outras línguas.
Por defeito, o Indesign apresenta a língua inglesa (formato English: USA) para o texto a tratar. Devo sempre activar a língua nativa no texto.
Na imagem a seguir do lado esquerdo, língua portuguesa, do lado direito, em turco.

A língua encontra-se na Palete Control, debaixo dos Character Styles.

7. Apóstrofos e comas
Numa herança vinda das máquinas de escrever, os apóstrofos e comas vieram inundar os textos com má tipografia. No exemplo abaixo, a primeira palavra usa comas tipográficas, usando o desenho real feito pelo criador da fonte; a segunda palavra usa uma versão falsa do mesmo caracter.

Para activar/inactivar as comas tipográficas, Preferências, tab Type.
Ao assinalar a checkbox Use Typographer’s Quotes, as comas serão reais. Ao dessassinalar, as comas serão artificiais. Posso activar ou desactivar esta função ao longo da construção do meu documento.

8. Ligaduras
Remontando à época medieval, caindo em desuso no século XX, mas voltando em força no princípio deste século, as ligaduras foram criadas aquando da junção de 2 ou mais caracteres que, isoladamente não funcionariam tipograficamente. Nem todas as fontes têm a opção de ligaduras. Mais uma vez, a Chaparral Pro, tem no seu mapa de caracteres, estas ligaduras.

Para activar ou inactivas a ligaduras, no fim da Palete Control, sub-menu, Ligatures.

9. Espaços indivisíveis
Não se deve de forma nenhuma partir 3 mg, ou 6 Kg ou 200 mm.
Para isso, existem os espaços indivisíveis, que me permitem agarrar o número à abreviatura.
No exemplo abaixo, inseri um espaço indivisível, mas flexível. Se forem demasiados, nada que um GREP não resolva.

Os espaços indivisíveis encontram-se no Menu Type > Insert White Space > Nonbreaking Space.

10. Dicionário
Não preciso de me alongar muito neste tópico. Um bom dicionário vai-se construíndo, por vezes durante anos. Não faz sentido não adicionar ao dicionário a palavra hortelã-pimenta, quando o meu trabalho é paginar livros sobre ervas medicinais.
Para configurar o dicionário na língua que pretendo, Preferências > Dictionary.

Para o usar, menu Edit > Spelling > Dictionary.
É neste quadro que posso adicionar palavras ao dicionário, assim como o modo de hifenizá-las.

Boas regras.








{ 15 comentários… lê-los a seguir ou adicionar um }
Caro Eduardo,
Venho hoje partilhar uma dúvida que me surgiu em relação ao uso do dicionário (e também algumas conclusões): ocorreu-me que se vamos construindo o dicionário à medida que vamos adicionando excepções de hifenização, será que os documentos que já existem ficam também afectados?
Mas depois fui fazer algumas experiências e verifiquei que nas preferências de cada documento, está predefinido para as excepções de hifenização “User Dictionary and Document”. Daí que presumi que as entradas que vamos introduzindo, afectam de imediato o documento que estamos a usar, mas os documentos já existentes mantêm-se inalterados.
Experimentei duplicar um documento, introduzir uma excepção de hifenização para uma dada palavra, contrariando a forma como a palavra estava originalmente partida.
Gravei esse documento e depois abri a cópia. A palavra estava partida da mesma forma (original), o que significa que este ficheiro não foi afectado pela alteração introduzida no dicionário no outro documento. Depois, fui às Preferências, no separador “Dictionary”, na secção “Hyphenation Exceptions”, à frente de “Compose Using”, escolhi a opção “User Dictionary”. E aí verifiquei que a hifenização da “tal” palavra se alterou, de acordo com o dicionário “geral” (User).
Daqui, deduzi então que as excepções introduzidas, vão valer para os documentos novos, e que os antigos se mantêm inalterados (felizmente!), a menos que nas excepções alteremos a opção para “User Dictionary”.
Aproveito para lembrar que poderemos criar dicionários novos (por exemplo, para termos específicos de medicina, engenharia, etc.) também nas preferências.
E peço-te que me corrijas se alguma das coisas que disse acima estiver incorrecta.
Obrigada!
Ângela,
Sobre este assunto, de certeza que sabes muito mais do que eu. Apesar de o usar com alguma regularidade, nunca tive tempo para me sentar e criar algo a partir do princípio, coisa que me faria grande falta no tipo de trabalho que faço.
Obviamente, não deve haver nada a corrigir
Obrigado eu!
Olá
Excelente site, sou um amador do indesign.
Uma pergunta:
Num texto não justificado julgo ser errado hifenizar.
Cumprimentos
Olá Pedro,
Verdade. Os textos alinhados à esquerda, centro e direita não devem hifenizar. Isso não quer dizer que não se faça, essencialmente por uma questão de espaço, basta folhear algumas revistas e esta regra não é considerada.
Obrigado e um abraço.
Fiquei fã do blog, e espero sinceramente que tenha continuidade, já o li todo.
Quanto à hifenização, é verdade que as revistas têm imensos casos desses, mas pronto, lendo os clássicos da tipografia, Robert Bringhurst, ou o Ruari McLean, vemos que o génio deles vinha ao de cima ao valorizarem esses pequenos detalhes, o que me deixa sempre fascinado, mas por exemplo já não passo horas de volta de uma fonte, são gostos!
Cumprimentos, e obrigado pela paciencia
Viva Pedro,
Quanto à continuidade, depende de duas coisas: da minha disponibilidade (vai sendo alguma) e do feedback (para falar verdade, esperava mais, basta olhar para o número de comentários…).
Relativamente ao Bringhurst (que livro notável!), está lá tudo o que precisamos e não precisamos. Quanto à fonte, estou de acordo consigo: o Chaparral Pro cobre 60% das minhas necessidades, o resto é escolher de um grupo de boas fontes que funcionem.
Abraço
Obrigada, Ângela Rodrigues
pelo link http://www.incunabulo.com…
Agora, PARABÉNS ao Eduardo:
Paixão pela Tipografia = excelente trablho…
Continue… e obrigado
Até breve
Patrícia Clemente
PARABÉNS!! Excelente site!
Olá!
Acessei hoje o Incunabulo e fiquei muito bem impressionado com o seu conteúdo. Fantástico! Virei fã…
Queria apenas saber uma coisa, já que sou leigo em Indesign: ele possui, como o PageMaker, a função de colar textos em “fluxo automático”, ou “semi-automático”? Ou a colagem de textos se faz apenas manualmente?
Grato!
Zé Mário
cidade de Caraguatatuba, Estado de São Paulo, Brasil.
Olá Mário,
Que eu saiba, a colagem é manual, eu nem sabia que o PageMaker tinha essa feature
Abraço!
Parabéns! Quisera eu que todos os que se dizem designers ou produtores gráficos, perdessem alguns minutos par ler esses artigos esclarecedores sobre a área gráfica/editorial e design. Haveria uma considerável diminuição do lixo gráfico/tipográfico que invadiu o mundo com a chegada dos softwares gráficos.
Marcelo
Analista gráficos digital
Parabéns pelo Site e pelas dicas,
têm sido muito úteis para mim que sou um paginador nas horas vagas.
Rui Pedro
Muitos elogios “rasgados” para você e teu site/blog, e com razão.
Não tive tempo de ler muita coisa aqui ainda, mas farei isso.
Como disse o Pedro aqui acima, é, de fato, impressionante a quantidade e a qualidade dos posts esclarecedores.
Parabéns, mesmo!
thanks for sharing this it have been of great help
That have been informing thanks for sharing this